A vitamina D, tradicionalmente associada à saúde óssea, é atualmente reconhecida como um hormônio esteroide com atuação sistêmica. Sua forma ativa, o calcitriol, exerce efeitos endócrinos, parácrinos e autócrinos, influenciando múltiplos tecidos e sistemas fisiológicos (Bikle, 2014; Bouillon et al., 2019).

A presença de receptores de vitamina D em diversos órgãos, incluindo músculo esquelético, tecido adiposo, pâncreas e sistema imunológico, reforça seu papel na regulação metabólica e hormonal (Bouillon et al., 2019; Christakos et al., 2020). Nesse contexto, a deficiência de vitamina D tem sido amplamente investigada por sua associação com disfunções metabólicas e alterações hormonais.

Do ponto de vista endócrino, evidências sugerem que níveis reduzidos de vitamina D podem estar relacionados a alterações em hormônios anabólicos. Estudos observacionais indicam associação entre baixos níveis de 25(OH)D e concentrações reduzidas de testosterona em homens, embora os resultados ainda apresentem heterogeneidade (Wehr et al., 2010; Lerchbaum & Obermayer-Pietsch, 2012).

Além disso, há evidências consistentes de associação entre vitamina D e metabolismo glicídico. Uma revisão sistemática com metanálise demonstrou que baixos níveis de vitamina D estão associados a maior risco de resistência à insulina e desenvolvimento de diabetes tipo 2 (Song et al., 2013; Mirhosseini et al., 2018). Contudo, ensaios clínicos randomizados mostram resultados variáveis quanto ao efeito da suplementação sobre esses desfechos, sugerindo que a relação não é exclusivamente causal.

No que se refere à composição corporal, a deficiência de vitamina D é frequentemente observada em indivíduos com sobrepeso e obesidade. Evidências indicam uma associação inversa entre níveis séricos de vitamina D e adiposidade, possivelmente relacionada ao sequestro da vitamina no tecido adiposo e a alterações inflamatórias (Wortsman et al., 2000; Pereira-Santos et al., 2015).

Outro aspecto relevante envolve a função muscular. A vitamina D desempenha papel importante na função e na força muscular, sendo que sua deficiência está associada à redução de desempenho físico e maior risco de sarcopenia (Ceglia, 2009; Stockton et al., 2011).

No sistema imunológico, a vitamina D atua na modulação da resposta imune inata e adaptativa. Níveis inadequados estão associados a maior suscetibilidade a infecções e a estados inflamatórios crônicos de baixo grau, os quais contribuem para alterações metabólicas (Aranow, 2011; Prietl et al., 2013).

Apesar dessas associações, é fundamental destacar que a vitamina D não deve ser interpretada como um fator isolado. Revisões recentes enfatizam que, embora níveis baixos estejam relacionados a diversos desfechos clínicos, a suplementação indiscriminada não apresenta benefícios universais, reforçando a necessidade de uma abordagem individualizada e baseada em evidências (Bouillon et al., 2019; Pilz et al., 2019).

Dessa forma, a avaliação do status de vitamina D deve ser integrada a um contexto clínico mais amplo, considerando alimentação, exposição solar, composição corporal e exames laboratoriais. A correção da deficiência, quando indicada, deve ser conduzida de forma estratégica e individualizada.